A internet é muito mais que uma rede de computadores

O debate político e a cobertura da imprensa sobre a votação do Marco Civil da Internet não tocaram nas consequências mais importantes da expansão mundial da rede de computadores e que afetam diretamente a cada um de nós. A internet e sua interface visual – a Web – já estão conformando a sociedade do futuro ao surgirem como alternativa para grandes dilemas atuais, como a degradação do meio ambiente, o caos urbano e o agravamento das disparidades sociais em escala planetária.

A discussão travada aqui no Brasil se limitou a aspectos técnicos e estratégias comerciais, sem levar em conta que a internet vai permitir a descentralização econômica e populacional do país ao viabilizar empregos e empresas em regiões que hoje estão marginalizadas, mas que oferecem excelente qualidade de vida.

É cada vez maior o número de brasileiros que abandonam as grandes cidades castigadas pela lista infindável de problemas que hoje formam a pauta jornalística dos grandes jornais, revistas e emissoras de televisão do país. Esses brasileiros buscam cidades no interior porque a internet viabiliza a atividade econômica em regiões periféricas, coisa que antes era impossível porque as comunicações eram analógicas e de alto custo.

A digitalização e a rede de computadores permitiram uma fantástica circulação de informações por grandes distâncias e a um custo relativamente baixo se comparado com as linhas telefônicas físicas. Essa informação que circula pela internet é o motor de um novo empreendedorismo baseado em pequenas unidades descentralizadas, porque não é mais necessário concentrar um grande número de funcionários num espaço reduzido por causa dos custos de comunicação e de transportes.

Por isso, a internet é muito mais do que uma rede de computadores. Ela pode ser comparada ao papel que o petróleo teve na nossa sociedade e na economia durante a maior parte do século 20. A preservação da igualdade de acesso, também conhecida como a neutralidade da internet, garante que os brasileiros tenham maiores possibilidades de acesso à produção de bens e serviços imateriais, movidos à informação.

A internet não se resume a um ambiente para jogos eletrônicos online, voyeurismo no Facebook, egocentrismo via Twitter e fofocas em redes sociais. Esta é a parte menos importante, embora seja a mais badalada. Também não é apenas uma vitrina para a multiplicação de engenhocas tecnológicas. A nossa vida, nos próximos 20 ou 30 anos, estará condicionada pela rede, pois aumentará muito o número de brasileiros que dependerão dela para seu sustento, em maior ou menor intensidade.

Por isso é tão importante que a internet permita maior igualdade de oportunidades do que as oferecidas pelo modelo industrial. É preciso lembrar que a rede de computadores surgiu e cresceu como um projeto não lucrativo e descentralizado. Ninguém pode dizer que é dono da internet, embora os Estados Unidos exerçam um papel importante na gestão dos poucos órgãos centralizadores.

Pode parecer estranho, mas quanto mais livre for a internet, ou seja, quando mais o acesso e o uso não forem condicionados pelo fator econômico, mais ela poderá produzir inovações. Quanto maior a diversidade de conteúdos informativos circulando na rede, maior a possibilidade de pessoas criativas e empreendedores desenvolverem produtos e serviços inovadores por meio da recombinação de dados e informações.

A economia da era digital baseia-se na produção de bens e serviços imateriais, logo sem utilizar matérias-primas esgotáveis que geram perdas, algumas irreparáveis, no meio ambiente. A produção de riquezas, o famoso PIB, e a geração de empregos dependerão cada vez menos da produção industrial baseada em insumos esgotáveis. A informação é a primeira matéria-prima que, além de não ser esgotável, se reproduz e se valoriza com o uso e com a difusão.

Nada disso foi dito na nossa imprensa e nem pelos nossos governantes, o que deixa a maior parte do público vulnerável à desinformação e sem condições de avaliar a real importância do que é decidido em Brasília por políticos que, na sua maioria, não têm a mais pálida ideia do que está por trás do debate sobre o Marco Civil. Para deputados e senadores, o debate é parte de uma estratégia eleitoral.

Por isso, o futuro da internet brasileira, que hoje é também um componente-chave do sistema de comunicação móvel via smartphones, acabará tendo que ser decidido pelos seus usuários diretos. A conscientização e a mobilização já estão sendo feitas por sites como o Avaaz, que oferece uma oportunidade inédita de participação cidadã independente dos canais convencionais, e que só é viável porque existe a internet. 

Fonte: Observatório da Imprensa, por Por Carlos Castilho

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