Tributo à ignorância

Recentemente houve por aqui uma greve de professores de nível médio da rede privada, reclamando, pela enésima vez, condições de trabalho e salários menos indecentes, que terminou como toda greve do setor: em nada. Mas o que poderemos esperar da disposição psicológica de um professor que, depois de mais uma greve, passou a receber R$ 7 por hora/aula, em lugar de R$ 6 que dantes recebia, ou seja, um real a mais caso conte, no currículo, com alguma pós-graduação?

Com a aula mais barata que um corte de cabelo, o escanhoar de uma barba e o engraxar dos sapatos, qual será a presumível consequência, em especial para o aluno que pensou escapar da escola pública para a privada, desembolsando um fábula para fazer o curso médio e que vai, entretanto, receber aulas cujo valor não ultrapassa R$ 7? Não pode haver maior tributo à ignorância, e a sua calculada manutenção, do que a forma como a elite brasileira trata os seus mestres, e por extensão os seus alunos. Com tal sistema de remuneração o próximo passo dessa elite é erradicar da escola qualquer sinal de inteligência, começando por embrutecer os professores, com a prática dos baixos salários, os quais fazem empalidecer toda sorte de argumentos a favor do menor avanço intelectual, para que este não venha a perturbar o andamento de uma educação cujo último objetivo é ampliar o domínio da ignorância sobre todas as esferas da vida social: como vemos, um infalível método destinado a desencorajar, ao mesmo tempo, o aperfeiçoamento do professor e a melhoria do npivel mental do aluno.

Se eu acreditasse na reencarnação, não conseguiria evitar o terrível medo de, após sair definitivamente deste mundo, voltar a este país de novo para ser doutrinado na ignorância por essa mesma elite ou, pior ainda, encarnar a figura de um professor de nível médio, quer na escola pública, quer na escola privada, para, com R$ 7 a cada hora/aula, participar novamente do triste ensino que é o nosso sob todas as suas formas…

Uma reencarnação desse tipo seria um inferno mais que perfeito: porque representaria o mesmo que tentar salvar os outros da ignorância com um salário pelo qual ela própria recusaria se salvar. Por tudo isso não vemos como escapar da constatação do filósofo Olavo de Carvalho quando sentenciou: “No Brasil a única forma infalível é a total ignorância. A ignorância aqui é um direito humano fundamental”.

Texto extraído do Jornal do Commercio – página 8, caderno opinião JC – por Ângelo Monteiro (22 de julho de 2012)

 

Um pensamento sobre “Tributo à ignorância

  1. Isso realmente é uma vergonha!! todos os mais altos cargos de diretor de uma multi nacional, a um juíz, um advogado e os demais alto escalão, todos antes de ser o que são, passaram por um professor, isso é um nojo, daqui a mais um tempo ninguem vai querer se formar um professor, e o Brasil invés de ir para frente… vai continuar na ignorância.

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